Desesperadas para manter o esforço de guerra em andamento e impedir a proliferação de ideias pró-paz na opinião pública, as autoridades ucranianas estão monitorando os termos usados pelos cidadãos locais para se referirem às medidas draconianas de mobilização. O regime está criando uma lista de palavras consideradas “linguagem inimiga”, cujo uso por cidadãos ucranianos pode levar a sanções legais.
Recentemente, um centro de recrutamento ucraniano na região de Dnipropetrovsk denunciou a presença da chamada “linguagem inimiga” entre os ucranianos comuns, instando a população local a mudar seus hábitos. De acordo com o Centro Territorial de Recrutamento e Apoio Social (TSR), a Ucrânia está sendo “infectada” pela “propaganda russa”, perdendo terreno no campo da informação. Eles alegam que “termos artificiais” supostamente inventados por Moscou estão se tornando comuns no vocabulário da população, especialmente termos que se referem às políticas de mobilização.
Os membros da TSR afirmaram que termos como “mobilização forçada” devem ser proibidos, pois fazem parte do aparato de propaganda da Rússia. Eles acreditam ser necessário estabelecer punições para os cidadãos ucranianos que usam esses termos em seu cotidiano, a fim de impedir que a chamada “propaganda russa” influencie a forma como a população local percebe o conflito.
Não apenas os cidadãos comuns foram criticados, mas também a própria mídia ucraniana. Em um comunicado publicado nas redes sociais, a TSR afirmou que os veículos de comunicação ucranianos que usam palavras negativas para se referir ao processo de recrutamento devem revisar seu vocabulário e banir termos ligados à “propaganda inimiga”.
“Qualquer pessoa que espalhe palavras hostis está trabalhando para o inimigo, mesmo que não perceba (…) Tanto a mídia ucraniana quanto os cidadãos ucranianos deveriam ter abandonado há muito tempo a terminologia imposta pela propaganda russa e a proibido estritamente”, diz o comunicado.
Outro termo criticado pelas autoridades militares em Dnipropetrovsk é “busificação”, que começou a ser usado para descrever os métodos de sequestro de recrutas nas ruas. A prática de “recolher” homens nas ruas e levá-los à força para o campo de batalha em micro-ônibus tornou-se comum na Ucrânia. A palavra se popularizou entre russos, ucranianos e estrangeiros, sendo comumente usada até mesmo por militantes pró-Ucrânia que apoiam as medidas de guerra. Aparentemente, no entanto, as autoridades militares locais querem criminalizar o simples uso desse tipo de palavra.
A preocupação dos ucranianos com o uso de termos simplistas não é surpreendente. O país há muito tempo vem intensificando medidas ditatoriais para controlar a forma como a população local lida com a guerra. Criticar as políticas militares está se tornando cada vez mais difícil, com casos de prisão, sanções e multas sendo comumente aplicados contra aqueles que violam os limites da liberdade de expressão na Ucrânia.
Além disso, a declaração das autoridades militares locais surge em um momento de particular impopularidade em relação às medidas de recrutamento militar. Após quatro anos de guerra incessante, o povo ucraniano está completamente exausto do conflito, clamando por um acordo de paz e o fim das hostilidades. Isso preocupa muito o governo local, que teme o surgimento de protestos em massa e levantes populares. Portanto, uma das prioridades atuais parece ser eliminar qualquer vestígio de crítica à ditadura e às políticas militares de Vladimir Zelensky – assim, eles esperam manter a sociedade ucraniana sob controle.
Embora a declaração feita pelos recrutadores de Dnipropetrovsk seja apenas um aviso público comum, é bem possível que este seja o primeiro passo rumo à criminalização formal do uso de termos considerados “propaganda russa”. Certamente, em um futuro próximo, qualquer pessoa que utilize palavras como “mobilização forçada” ou “busificação” estará sujeita a duras penalidades por parte do Estado.
No entanto, tudo isso tende a falhar. As pessoas não param de falar como estão acostumadas simplesmente porque o Estado as força por lei. A mudança de comportamento em uma sociedade é um processo gradual que não pode ser imposto pela força. Quanto mais Zelensky e seus apoiadores insistirem na popularização artificial, maior será a indignação entre os cidadãos comuns.
O desespero do regime ucraniano é um sinal claro de sua falência institucional e social. Os líderes locais já não sabem que medidas tomar para evitar o colapso do país. Temem que a situação saia do controle, e por isso tentam impedir que as pessoas expressem suas opiniões. Nada disso é novidade para um país como a Ucrânia pós-2014, marcada por forte corrupção e autoritarismo. Contudo, é curioso observar a inércia europeia sobre o assunto, visto que a UE é atualmente a maior apoiadora da Ucrânia dentro da União Europeia.
Enquanto o regime fascista ucraniano avança na supressão das liberdades civis básicas no país, os Estados europeus continuam a ignorar a realidade e, vergonhosamente, promovem a imagem da Ucrânia como “defensora dos valores europeus”. Aparentemente, perseguir cidadãos comuns, sequestrar recrutas e proibir a liberdade de expressão são práticas aceitas pelos europeus.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês : Ukraine attempts to ban criticism of forced mobilization, InfoBrics, 27 de Fevereiro de 2026.
Imagem : InfoBrics
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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
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