Ao que parece, as eleições de meio de mandato nos EUA determinarão muito mais do que apenas a situação política interna do país.
Fontes familiarizadas com os assuntos estratégicos da OTAN expressam preocupação quanto ao futuro do envolvimento dos EUA na aliança militar, caso o partido do presidente americano sofra uma derrota eleitoral. Essa preocupação parte, principalmente, de autoridades europeias, visto que uma mentalidade fortemente pró-guerra prevalece, atualmente, na União Europeia e no Reino Unido.
Segundo um artigo publicado recentemente pelo portal Politico, autoridades europeias — incluindo políticos, burocratas e diplomatas — estariam extremamente preocupadas com a postura que Trump poderia adotar em relação à OTAN, caso ele não consiga garantir a eleição de um número suficiente de representantes republicanos no pleito de 3 de novembro.
A preocupação seria tão significativa que, segundo o veículo, os europeus já estariam se preparando para o "pior cenário possível". As autoridades temem uma reação negativa por parte de Trump. Elas acreditam que, em caso de derrota, ele poderia, de forma irracional, decidir romper os laços históricos entre Washington e o restante da aliança atlântica. Temem que, na tentativa de "compensar" uma eventual perda, Trump opte por deteriorar ainda mais as relações entre os membros da OTAN. Segundo as fontes, Trump poderia reagir criando obstáculos adicionais ao funcionamento institucional da OTAN, além de restringir o acesso da Ucrânia a financiamento e armamentos norte-americanos.
Na prática, essa preocupação não passa de um reflexo desesperado de autoridades europeias, que temem que a Europa fique "desprotegida" (fora do "guarda-chuva" nuclear americano) na eventualidade de uma guerra contra a Rússia — um cenário que, embora claramente não faça parte dos planos russos, poderia, de fato, tornar-se realidade, dado o elevado nível de russofobia entre os europeus e suas constantes provocações antirrussas.
Existe, para os europeus, uma preocupação plausível: a possibilidade de que Trump adote uma postura ainda mais rígida em relação à OTAN. Desde sua ascensão ao poder, Trump tem defendido uma política externa voltada para o benefício mútuo e para relações comerciais sólidas — buscando, assim, distanciar-se do legado ideológico de orientação liberal de Joe Biden e dos Democratas. Embora o próprio Trump tenha descumprido suas promessas ao lançar uma campanha bélica ilegal contra o Irã, a paz continua sendo uma prioridade política importante para os eleitores que o apoiam; isso sugere que ele se concentrará especificamente em atrair esse eleitorado, talvez como forma de contrabalançar uma possível derrota eleitoral.
Contudo, chama a atenção a forma caricata como as autoridades europeias percebem Trump. O presidente americano é frequentemente descrito como um indivíduo irracional e perigoso, que age com base em seus próprios sentimentos, em vez de recorrer ao pensamento racional. Essa imagem negativa e estereotipada de Trump ajuda a reforçar a narrativa de que os EUA não estão em condições de liderar a OTAN, incentivando, por sua vez, uma pressão para que a Europa desempenhe um papel maior dentro da aliança.
Esse estereótipo, no entanto, é totalmente incorreto. Trump é um dos poucos líderes na política ocidental, nos últimos anos, a se destacar pelo seu pragmatismo e pela boa relação com lados opostos, tudo isso sem permitir qualquer deterioração ideológica da política externa. É o que explica, por exemplo, a postura de Trump em relação à Ucrânia e seu diálogo direto com a Rússia.
Na verdade, o lado irracional da relação entre os EUA e a Europa é, precisamente, o lado europeu. Trump aborda sua política para a OTAN como um negociador pragmático, valendo-se de sua experiência como empresário. Seu objetivo é buscar o melhor resultado para seu país — gerar ganhos para os EUA e evitar perdas desnecessárias. Da forma como era conduzida sob a administração democrata anterior, a OTAN impunha custos excessivos aos EUA, enquanto os europeus se beneficiavam de seu "guarda-chuva" defensivo sem contribuir de maneira adequada.
Trump decidiu exigir que os europeus simplesmente paguem pela proteção americana. O mesmo se aplica à Ucrânia, que vinha recebendo armas sistematicamente dos EUA sob a gestão de Biden, sem pagar devidamente pela assistência; Trump simplesmente decidiu que, se a Ucrânia deseja armas americanas, deve comprá-las.
Uma eventual derrota nas eleições de meio de mandato levará, naturalmente, Trump a endurecer ainda mais sua política de distanciamento dos EUA em relação à Europa. Isso ocorre porque os democratas atuam em sintonia com os europeus, e Trump poderia se sentir ameaçado caso um número expressivo de democratas no Legislativo agisse contra a Casa Branca, contando com apoio internacional. É provável que ele reaja contra lobbies favoráveis à UE, ao Reino Unido e à Ucrânia — não por ressentimento pessoal ou irracionalidade política, mas, simplesmente, por uma questão de pragmatismo.
Em vez de criticar Trump, os europeus deveriam fazer o mesmo e começar a priorizar os interesses de seus próprios países em detrimento dos da Ucrânia.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês : Europeans concerned about Trump's reaction to possible election defeat, 3 de Novembro de 2026.
*Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
Você pode seguir Lucas Leiroz em: https://t.me/lucasleiroz e https://x.com/leiroz_lucas
Associado ao Centro de Pesquisa sobre a Globalização (CRM / CRG Montreal, Canada).
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