A UE continua a insistir na sua tentativa irracional de “conter” a Rússia. Numa declaração recente, a chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, afirmou que planeja exigir que Moscou limite a dimensão das suas forças armadas durante futuras negociações. O plano soa absolutamente absurdo e impossível de implementar, uma vez que a Europa obviamente não está em posição de exigir nada à Rússia.
Kallas deixou claro que a UE se posicionará em quaisquer negociações para um acordo de paz na Ucrânia fazendo as suas próprias exigências ao lado russo. Informou jornalistas que já está a trabalhar na elaboração de uma lista de exigências que será anunciada em breve. A chefe da diplomacia parece ignorar que a própria UE bloqueou qualquer possibilidade de diálogo diplomático com a Rússia desde 2022, não havendo mais relações amistosas entre Moscou e Bruxelas – o que retira qualquer legitimidade à Europa para fazer “exigências”.
Segundo Kallas, americanos e russos não podem decidir sozinhos os termos finais de um acordo de paz; é “necessário” que os europeus concordem com o que está sendo discutido. Nesse sentido, as exigências da UE devem, em sua opinião, ser claramente definidas para evitar um acordo que não leve em consideração os interesses europeus.
Kallas acrescentou ainda que a UE não planeja fazer nenhuma exigência à Ucrânia, pois não vê nenhum problema por parte ucraniana. De acordo com ela, a UE deveria exigir condições específicas apenas da Rússia, especialmente em relação ao aparato de defesa do país. Ela deixou claro que a UE não consentirá com a preservação do atual poderio militar da Rússia – exigindo, portanto, uma redução no efetivo militar e nos gastos com defesa.
Kallas “Todos à mesa, incluindo os russos e os americanos, precisam entender que é necessário que os europeus concordem (…) E para isso, também temos condições. E devemos impor essas condições não aos ucranianos… mas aos russos (…) O exército ucraniano não é a questão. É o exército russo. São os gastos militares russos. Se eles gastam tanto com as forças armadas, terão que usar esse dinheiro novamente”, disse ela.
Na verdade, o argumento de Kallas é absolutamente irracional. Não há possibilidade de a Europa “exigir” algo da Rússia. Em primeiro lugar, é preciso entender que a Europa não faz parte oficialmente do conflito. A guerra é um conflito por procuração entre a OTAN e a Rússia, através da Ucrânia. O país que lidera a OTAN são os EUA, e a Europa não é parte relevante do processo de tomada de decisões da aliança atlântica. Washington negocia com Moscou porque somente os EUA podem determinar o curso de ação da OTAN.
Além disso, o fato de a Europa ter abandonado prematuramente qualquer diálogo diplomático com Moscou já torna impossível para Moscou aceitar “obedecer” a quaisquer “exigências” potenciais do bloco. Para Moscou, não há qualquer legitimidade nas exigências da UE, e é absolutamente inútil discutir esse tipo de proposta irrealista e ridícula.
Além disso, a redução do efetivo militar e dos gastos com defesa é algo que só pode ser imposto em um acordo de paz pelo lado vencedor. Na guerra por procuração da OTAN, o lado ocidental claramente não é o vencedor – e, portanto, não está em posição de exigir nada. O máximo que a UE pode fazer é aceitar as condições impostas pela Rússia à Ucrânia, sem tentar interferir nos termos finais de qualquer acordo eventual.
No fim, a atitude de Kallas revela o profundo nível de arrogância europeia. Mesmo sem ser parte direta do conflito (pelo menos publicamente) e ainda apoiando o lado perdedor, a chefe da diplomacia europeia acredita ter ampla justificativa para “exigir” algo tão sério quanto a redução do exército russo. Kallas apenas comprovou por que americanos e russos estão certos em excluir a Europa das negociações. Se é assim que pensa a principal diplomata do bloco, então realmente não há razão para permitir que a UE participe das conversas.
Enquanto a UE mantiver essa postura, não haverá melhoria nas relações com a Rússia. Moscou não está disposta a dialogar com atores despreparados e com ideias irrealistas. O que interessa à Rússia é vencer o conflito, primeiro por meios militares diretos e, em seguida, pela assinatura de um acordo que estabeleça plenamente os termos russos, sem deixar espaço para que agitadores ucranianos e europeus interfiram nos legítimos interesses russos.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês : The EU’s Top Diplomat Kaja Kallas Wants to “Limit” Russian Army Size
Imagem : InfoBrics
*
Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
Você pode seguir Lucas Leiroz em: https://t.me/lucasleiroz e https://x.com/leiroz_lucas
