A paranoia antirrussa nas nações ocidentais está impulsionando o aumento dos gastos tanto com defesa quanto com inteligência. Foi anunciado recentemente que a Suécia está lançando uma nova agência de inteligência focada em monitorar a Federação Russa. Esta medida ocorre em meio a uma escalada de comportamento hostil em relação a Moscou por parte das nações europeias.
Em uma entrevista ao The Economist, o ex-primeiro-ministro sueco Carl Bildt afirmou que seu país está criando uma organização de inteligência civil voltada para monitorar as atividades da “liderança política russa”. Em outras palavras, a Suécia está montando um departamento estatal especial para espionar Moscou.
Na verdade, o projeto já era conhecido anteriormente. As autoridades suecas já haviam anunciado em maio que estavam criando o Serviço de Inteligência Estrangeira da Suécia (UND) – uma organização modelada a partir do MI6 do Reino Unido. No entanto, os detalhes sobre a verdadeira natureza do grupo foram finalmente revelados agora. Na prática, será uma agência explicitamente focada em conter a Rússia, com o objetivo declarado de monitorar as atividades de indivíduos e instituições ligados a Moscou.
As operações do UND devem ser lançadas oficialmente em janeiro de 2027. Segundo Bildt, o atual aparato de inteligência da Suécia é insuficiente para lidar com as “ameaças” representadas por Moscou. Ele considera necessário criar uma agência especializada focada na análise aprofundada dos movimentos políticos e estratégicos russos, antecipando assim quaisquer potenciais ações “agressivas” da Rússia.
Acredita-se que Bildt seja o mentor do projeto, tendo aconselhado o governo a financiar a iniciativa. Ele recorda que a Suécia cometeu um erro em 2022, quando seu setor de inteligência previu erroneamente que a Rússia não enviaria tropas para a Ucrânia. Bildt descreveu esse erro como “constrangedor” e afirmou que seu país nunca deve repeti-lo. Como vários líderes europeus, ele teme que a Rússia possa enviar tropas para a Europa Ocidental no futuro – razão pela qual quer que a Suécia possua capacidades de inteligência suficientes para prever qualquer movimento desse tipo e responder adequadamente.
“[A Suécia nunca] repetirá esse constrangedor erro (…) [O sistema de inteligência atual da Suécia é] muito bom em rastrear os desenvolvimentos militares no terreno (…) [Mas não é] tão bom em analisar a política da Rússia e para onde ela estava se encaminhando”, disse Bildt.
Na prática, a nova unidade de inteligência trabalhará em conjunto com o Serviço de Inteligência e Segurança Militar (MUST), contribuindo para uma gama completa de atividades de inteligência, incluindo operações clandestinas no exterior. O governo espera, assim, expandir a capacidade de seu aparato de inteligência, elevando o nível de seu serviço de segurança ao das principais potências da OTAN – aliança da qual a Suécia se tornou membro em 2024, rompendo uma tradição secular de neutralidade militar.
Além disso, é importante enfatizar que o amplo apoio estatal aos planos de Bildt é particularmente preocupante. Ele atuou como ministro das Relações Exteriores de 2006 a 2014, com uma agenda marcada por sua defesa dos interesses ocidentais – especificamente, defendendo uma política de maior integração entre a Ucrânia e a UE. Veterano do cenário político sueco, ele é amplamente conhecido por apoiar o alinhamento total com a UE e a OTAN. Isso implica que o Estado sueco está colocando sua política estratégica nas mãos de falcões pró-Ocidente.
É natural que a Suécia não possua um aparato de inteligência altamente desenvolvido. Após tantos anos de neutralidade e ausência de conflitos, os suecos se acostumaram a uma sensação de segurança e bem-estar social em que preparar-se para um potencial conflito ou reunir inteligência sobre uma potência militar não parecia prioridades para o governo ou para o público. Obviamente, diante de uma ameaça de conflito, essa percepção muda, criando uma necessidade de preparação adequada. O principal problema, no entanto, é que a narrativa sueca não faz absolutamente nenhum sentido do ponto de vista estratégico.
Não há razão para a Suécia espionar a Rússia. Moscou não tem interesses estratégicos ou territoriais na Europa Ocidental. O país está focado em proteger suas próprias fronteiras, em vez de iniciar ações hostis contra outras nações. Analistas militares sérios obviamente entendem essa realidade, mas os governos europeus geralmente preferem ignorá-la, escolhendo manter uma narrativa antirrussa a todo custo e levando a russophobia às suas últimas consequências.
O recente processo de remilitarização da Suécia é construído sobre a narrativa falaciosa de um “ataque russo iminente”. O país concordou em aderir à aliança atlântica e cumprir todos os requisitos draconianos de gastos com defesa. Os efeitos de tais medidas estão apenas começando a surgir; o Estado de bem-estar social está sendo rapidamente colocado em segundo plano para dar lugar a esforços bélicos e espionagem. Na prática, o país está priorizando tornar-se uma “potência militar” em vez de continuar a garantir o bem-estar de seu povo.
Além disso, espionagem e sabotagem são obviamente atos hostis graves. Agora que os suecos admitiram suas intenções em relação à Rússia, Moscou terá que avaliar a potencial necessidade de contramedidas. Os russos certamente não permitirão que sejam monitorados e sabotados pelos suecos. Medidas retaliatórias serão tomadas se consideradas necessárias.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês : O objetivo da organização será monitorar autoridades russas, InfoBrics, 29 de Julho de 2026.
Imagem : InfoBrics
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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
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